Desejo

Posted: Junho 6, 2011 by giest4s in Uncategorized

Caro Tumulto:

 

Na ausência de resposta, venho mais uma vez contar-lhe meus devaneios de alma.

Desta feita, prendem-se como uma belíssima donzela do qual me encontro cativo.

Informo-o que esta donzela é diferente de todas as outras com as quais me deparei até ao momento. Revejo-me a mim próprio nela. Vejo nela a fragilidade da minha condição enquanto homem.

É a imagem do seu rosto que se sobrepõem sobre a imagem de todas as mulheres com que alguma vez me cruzei. É o desejo de sentir o seu cheiro que me embala e sossega em momentos de maior frustração. É o desejo de sentir os seus lábios, que me liberta de uma prisão de alma e me transporta para o berço da Humanidade, para a eterna morada dos enamorados.

Sei, no entanto, que este será, indefinidamente, um devaneio de meu coração. Sei que me encontro com feridas muito profundas que ainda não cicatrizaram. Contudo, este meu “cativeiro”, em muito me tem ajudado a sarar essas mesmas feridas. Escusado será dizer, que sou também eu que quero que elas sarem depressa. Não, quero para mim, um corpo marcado por lacerações que me atormentem e relembrem de meu passado. Vivo para o futuro. Vivo para o que me esperar. Não posso viver agarrado às minhas ligaduras, que me recordem do quão frágil fui em tempos.

Desejo para mim, a presença constante desta donzela em meu percurso.

 

Faro, 6 de Junho de 2011

Anúncios

Loucura

Posted: Abril 4, 2011 by giest4s in Uncategorized

Caro amigo:

Mais uma vez sinto a necessidade de lhe falar.

Esta necessidade, surge, não pela falta de sua resposta, mas pelo ímpeto que me surge para mais uma vez lhe deixar umas linhas de meus pensamentos.

De sua anterior resposta, algo me deixou muito pensativo. Mulheres como donzelas e palacetes. Como podemos nós, compará-las a duas coisas tão prosaicas? Como podemos nós desejar tanto esses dois ideais de mulher? Como podemos nós desejar encontrar a nossa donzela num qualquer palecete fortificado, alheio a qualquer invasor estrangeiro?

Buscamos no sexo oposto tanta coisa, criamos tantas expectativas, que acabamos esquecendo o que realmente importa.

Esquecemos que à semelhança de uma amizade, também um desejo tão grande, um amor tão grande, tem de ser cultivado. Esquecemos por variadas vezes que, também a fonte do nosso desejo, cria para nós determinadas espectativas. Estas nossas donzelas, veem em nós os seus cruzados, que estarão sempre disponíveis para as salvar de qualquer perigo. E não raras vezes, damos por nós a afastar a fonte de nosso desejo. seja por atitudes ou mesmo por palavras. Baixamos a guarda e, quando menos esperamos, somos atingidos onde nos dói mais… No peito!

Recentemente encontrei aquela que acho ser a fonte de minha mais recente inspiração. Alguém por quem vou nutrindo particular interesse. Ela é no entanto o anjo a que temo nunca chegar. Vou desejando platonicamente o seu amor. Vou querendo um seu olhar. Contudo, recebo em troca o que sempre me fui habituando a receber. Distância.

Longe vão os tempos em que me galanteava entre amores e desejos passageiros. Longe vão os meus tempos de conquistas. Tanto tempo se passou que já nem sei cortejar. Mas mesmo que ainda soubesse, valerá a pena desejarmos, nos tempos que correm, uma donzela, para não falar mesmo de um palacete? Devemos nós fechar o dentro de nós o desejo de um amor, de um beijo? Desejo esse que transportamos no nosso interior durante uma vida inteira? Será que devíamos ansiar apenas devaneios em deterimento de sentimentos?

São tantas as questões que me assolam que já nem penso com a clareza necessária para manter o meu estado de lucidez. Sinto-me cada vez mais um louco. Mas não será que serão assim todos os amorosos? Só os loucos buscam numa mulher o amor! Só os loucos amam!

Serei, então, isso mesmo. Serei um louco. Tentarei no entanto, conservar a réstia de bom senso que me tem acompanhado nas minhas cruzadas. No meio de tamanha loucura, olharei para si e, para estas nossas trocas de palavras como o meu antídoto. Encontrarei nestas linhas a droga necessária para conservar o que resta de minha lucidez.

Só assim, encontrarei a necessária força para olhar a Vida de frente, com a coragem necessária para, enfrentar a divina tarefa de sobreviver mais um dia dentro de mim. Dentro desta minha clausura.

Ulissipo, 4 de Abril de 2011

Posted: Março 28, 2011 by giest4s in Uncategorized

Ilustríssimo amigo:

Digo-lhe desde já que numa primeira apreciação de sua resposta a meus devaneios, me deixou um tanto ao quanto perplexo. Longe de mim, imaginar que me conhecesse subejamente. Mas que dizer? Seremos ambos filhos de algo superior, que nos forjou de maneira a que sendo dois, nossos pensamentos fossem um?

Espero que não. Isso me parece algo de romântico demais. No entanto, espero que sim, pois encontrei na sua presença e nas suas palavras o que há muito ansiava. Um conforto… Uma amizade, sem dúvida.

Quanto ao teor de sua resposta, muito me apraz saber que vai satisfazendo os seus devaneios da maneira que pode/consegue. Muito apraz, também, o seu elogio relativo à minha felicidade, ou à minha capacidade de me levantar nas adversidades. Mas como refere, e bem, a vida é uma busca constante por donzelas e palacetes.

No entanto, caro, não posso concordar consigo na separação que faz entre donzelas e palacetes, uma vez que usando para ambos, termos medievais, serei da opinião, que, ambas se referirão a uma mesma imagem, a um mesmo ideal. E sim. Falo de mulheres como ideais, e não como ideias.

Explico. Ideais, porque criamos em torno delas, determinadas expectativas (algumas goradas, outras não), determinadas características que as envolvem de um certo charme shakesperiano, de uma certa mística platónica. Claro que, salvas raríssimas excepções, depois de muitas buscas e demandas, após muitas batalhas ganhas e perdidas, conseguimos finalmente encontrar o refúgio por qual tanto batalhámos, junto de uma qualquer Lídia. É essa mesma Lídia que se tornará sem dúvida no nosso último reduto, no nosso palacete.

Estranho falarmos de mulheres, como quem fala de objectos. Mas não seremos todos objectos, uns nas mãos dos outros. Escusado será dizer que, ao invés do que se passa com nós, homens, as mulheres sabem bem o que fazer. São elas que detêm o poder. São elas que possuem o Santo Graal que qualquer cruzado, busca na sua mortal demanda. Pena que só muito poucos vejam com lucidez, o que subejas vezes não se encontra num primeiro olhar…

Coimbra, 28 de Março de 2011

Ontem Seria Tarde Demais

Posted: Março 27, 2011 by tumultounico in Uncategorized

Caríssimo amigo,

 

Não pude deixar de constatar uma índole metafísica latente na sua carta. Por entre o suspiro de ar fresco que, paradoxalmente, aquecia o meu pensamento, dissertavam invocações e paradigmas, de braços dados, como dois rebentos imberbes que se decidiram, finalmente, a brincar.

Entre os Deuses e os Homens, existe sempre estupefacção. Uns, não conhecendo os outros, pensam que os conhecem. Outros,  não se conhecendo a si próprios, julgam-se acima de qualquer verdade ou revelação. Isto torna a vida saborosa, condimentada, passível de justificar apostas múltiplas e jogadas de risco moderado. Sim, moderação, embora cobarde, torna-se essencial para que, em vida, não nos tornemos memória de alguém que morto p(a)erece (a) respirar.

No intervalo do olhar, que foge enfeitiçado por variados caminhos voluptuosos, apraz-me sublinhar a sua felicidade, que muitos tomariam por irrisória e humana, aquando da evidência de uma realidade, se quisermos generalizar, universal. Essa verdade lapida-se da monstruosidade sôfrega de cairmos no chão, sem contemplação do destino, enquanto alarves, desejamos a mulher do próximo, ou um palacete onde pousar a carcaça.

Gostaria de lhe afirmar o contrário, como proprietário de inúmeros palacetes e cavaleiro sexual de distintas donzelas, mas seria uma imagem prosaica, e, simultaneamente, falsa. Donzelas tornou-se há muito tempo um eufemismo para o carácter aguerrido, seguro e proactivo da mulher, enquanto que palacetes se tornam cada vez mais uma miragem nos tempos modernos. Se mulheres e palacetes se trocavam no passado, somos agora manipulados por mulheres, enquanto lutamos por palacetes a vida inteira, onde as colocar, salvando-as de qualquer outro príncipe que teime em assolar a área.

Entre o fumo compulsivo de um cigarro, e as cinzas despedaçadas de um corpo que teima em procurar um porto seguro, lhe afirmo com convicção que tudo não passa de um carrossel incessante, louco e difamatório, onde vingam os que mais bilhetes procuram obter.

Aqueles que, dias e dias a fio, entram no carrossel, pensando conhecer as suas manhas e rotinas, para no final se prostrarem no chão, doentes e amargos, com a face sulfatada pelo movimento e os ossos fracturados de feridas abertas. E mesmo pesarosos, frios e taciturnos, de tão malfadada sorte, se predispõem a, num novo dia, tomar o mesmo rumo, cavalgar perante a sorte, e arriscarem a ser felizes.

Mas não vejo Deuses onde o chão engole pedras. Nem sequer divindade onde o mar inunda um sal de memórias. Vejo a humanidade à procura de algo que não sabe bem o quê, em prol de algo que é maior que tudo, para justificar que hoje, ontem, seria tarde demais. Amanhã é outro dia para outra coisa. Todos os dias têm catalogações. Têm metas e prazos, têm primeiras referências e referências vá, pobrezinhas. Têm pessoas a ver e amar, e outras a recordar e afastar. Têm mulheres desejadas, as bem condimentadas, e mulheres princesas, as que estão presas.

Todos os dias são o início do que estamos para ser. E no final de cada um desses dias , deixamos de ser algo, para ser algo mais do que coisa nenhuma.

E falo-lhe com a minha quota parte de culpa. Ontem seria tarde demais, para ter nos meus braços quem desejo com afinco, mas mulheres feitas tecem o meu pranto. Com certeza manobram o sentir, não porque sejam maquiavélicas, mas porque tudo o que desejamos é ter a sua admiração. E admirando-nos, comem em parte, o que queremos ser, porque já as temos a elas.  Ponderaria a hipótese de uma princesa bonita, digo-lhe com estima, mas bonitas e princesas é colheita rara, ou “adquirida” a ferro e fogo, sem repatriação.

Há que desejar com afinco. Sem desejo, a vida torna-se o copular mórbido da estagnação. Há-que amar sem prazos de validade, sem metas ou destinos reservados. Sem amor, estagna-se copulando. Há-que acobardar o destino, sem contemplação! Mas há-que fazer isto tudo com moderação.

Paradoxalmente antagónica, caro amigo, é esta a minha principal lição.

 

 

 

 

 

Thoughts of life and death

Posted: Março 27, 2011 by giest4s in Uncategorized

Caríssimo

Hoje dei comigo a vaguear por espaços estranhos. Vaguei por mim mesmo.

Essa viagem, provocou em mim pensamentos de índoles variadas.

No entanto, desses vários pensamentos, um deles, não para de me assolar.

Vida e morte! Estas duas palavras tão antagónicas no sentido e significado. Como podem estar tão intrinsecamente ligadas? Como podem ser tão indissociáveis?

Destes pensamentos surgem as respostas que sempre encontrei na clássica mitologia. Não quero com tal, dizer que nascemos por mero capricho divino. Não. Para o inicio de uma nova vida, ambos sabemos ser necessário uma química entre duas pessoas, para além dessas mesmas duas pessoas. Requere-se ainda a predisposição para o gerar de uma nova vida.

No que ao capitulo divino diz respeito, só encontro a seguinte explicação: os deuses (esses nossos manietantes) decidem em Magnifico Concilio que o ser humano dever ser o mais perene possível. Deve, no entanto, deixar a sua marca no mundo e nas pessoas com quem trava afinidades ao longo da sua caminhada terrena. Somos, não findas vezes, comparados aos nossos criadores, seja em semblante, ou em psique. Mas se há algo que imortalmente nos separa deles, será sempre essa mesma imortalidade, bem como a capacidade de crescermos enquanto seres viventes e nos superarmos a nós próprios nas nossas adversidades. Isso será sempre algo que nunca nos sera tirado por qualquer deus.

No que à morte, possa respeitar (e sim. Respeito-a deveras) só posso descortinar uma justificação para esse fim último. Como poderíamos nós sofrer tantas tormentas e continuar alegres e com uma enorme vontade de continuar o nosso caminho? Teríamos nós também de ser deuses e ter a nossa imortal morada nesta terra que habitamos! A tal competitividade não podiam os deuses de se dar ao luxo.

Como tal só podiam terminar à nascença com tamanha competição. Teriam de “programar” no nosso código genético a mortalidade inerente a cada um de nós. E assim fizeram, quebrando com qualquer hipotése de aspiração humana a divina imortalidade.

Estarei assim tão errado em minhas divagações? Serei eu tão agarrado a um classicismo que me impeça de ver esta dualidade com a clarividência de um realismo necessário ao entendimento de tão eterno anseio em, compreender as razões de tão feliz humana caminhada?

Leiria, 22 de Marco de 2011